“Escrevo como se você estivesse comigo; encaro o perigo; como se estivesse apagando. Vivo como se estivesse morrendo e devo atribuir a quem esse traço?”
Ana Neves
Há uma continuidade evidente no que a Ana Neves artista faz: pintar, desenhar, escrever, atuar. Nada explica o outro. A escrita não comenta a imagem, ela participa do mesmo gesto. Não funciona como chave, mas como temperatura de um modo de fazer onde afirmar e desfazer caminham juntos.
Os desenhos e pinturas parecem feitos sob pressão. A linha delimita, retorna, reforça, insiste sobre si mesma. Como se precisasse repetir para surgir. Em alguns momentos, quase fere a superfície. Em outros, falha, rareia, deixa o corpo escapar. Há áreas onde a matéria se adensa, a cor acumula, pesa, e outras onde tudo parece prestes a desaparecer.
Antes de se fixar como pintura ou desenho, o trabalho de Ana Neves parece acontecer num outro plano, algo próximo de uma cena em formação, ou mesmo de um estado de rito, onde o corpo, a imagem e a linguagem ainda não se separaram.