Ainda bem
26.05.2026—11.07.2026
Curadoria Clarissa Diniz
/ SP
Alvaro Seixas
Destroy the art$y world, 2026
Marlon Amaro
Fire walk with me, 2024
Manuel Texeira da Rocha
Sem título, 1900
Marlon Amaro
Mesmo que espelhos pudessem falar, jamais diriam a verdade, 2020
Chico Cunha
O artista e o inferno, 2022/24

Em 1900, Manuel Teixeira da Rocha representou uma família observando Paris através da janela. A luz que invade o ambiente requintado — adornado por papel de parede, vasos de flores, brinquedos e mobiliário elegante — ilumina os olhares melancólicos de uma mulher branca e seus três filhos, confinados à domesticidade da vida familiar. Recobertos pelo fausto de suas vestes, os personagens manifestam, de modo silencioso e ambivalente, seu fascínio e apreensão diante da exterioridade que lhes chega sob a forma da paisagem envidraçada da cidade moderna. Trancafiados na segurança solitária de uma residência luxuosa, encenam as condições em torno das quais se constrói esta exposição: as estruturas de um mundo fundado na propriedade, na separação e no privilégio, orientado pela e para a burguesia.

A partir da experiência da Danielian Galeria com a arte situada entre o século XIX e início do XX, AINDA BEM reúne alguns exemplares da pintura burguesa que adquiriu força política e simbólica no referido período.
 Trata-se de uma combinação entre retrato e pintura de gênero empenhada em consolidar um imaginário da classe urbana então ascendente, que — no Brasil, em especial em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo — buscava representar a si mesma como próspera, refinada e culturalmente vinculada à Europa. Através da sensibilidade habilidosa (e não raro criticamente ambígua) de artistas como Moreau, Amoedo, Papf ou Weingärtner, famílias e personagens burgueses emergem no abastado ambiente de salas, bibliotecas e ateliês, protagonizando uma arte de distinção social que hoje se vê confrontada por outros sujeitos, repertórios e projetos. 

Tomamos como pano de fundo a recente emergência de práticas — ou, ao menos, de retóricas — voltadas à equidade de gênero, ao antirracismo, ao enfrentamento das desigualdades sociais e à responsabilidade ambiental, hoje bastante disseminadas pelo chamado mundo das artes. Talvez sintomaticamente, enquanto o planeta arde em guerras, colapsos climáticos e políticas de supremacia racial, em galerias, instituições, feiras, ateliês, coleções e universidades nutre-se a expectativa de que as antigas — e persistentes — tradições elitistas, racistas e patriarcais da arte estariam em crise e, enfim, em vias de dissolução. Portanto, é neste momento de intensificação da sensação de “fim do mundo” que evocamos o imaginário burguês para novamente expor e confrontar suas violências, nas quais a própria arte está implicada. Interessa-nos especular acerca do esgotamento histórico desse modo de organização social e de suas formas artísticas, conjurando a possibilidade de sua desintegração.



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